Vamos sair disto. Com maior ou menor sofrimento, vamos sair disto. No final, lembrar-nos-emos das grandes tendências, esqueceremos as bastonadas irrefletidas e as pequenas disputas momentâneas que não ficam na memória. O país é grande demais para as pequenas guerrilhas e para os pequenos ódios.

Nem sequer fará sentido a atual disputa entre o público e o privado. O nosso país tem séculos de uma História assente na relação virtuosa com a sociedade civil, com as organizações locais, supletivas do Estado, substitutivas dos mercados, compensadoras das desigualdades decorrentes de ambos.

Não somos o capitalismo selvagem, para quem tudo assenta no mérito pessoalista, como se isso fosse critério, ou nos mercados infalíveis, como se isso existisse. Também não somos um país do Estado, nem quando ele foi reinado, porque o Estado está longe demais e é fraco demais. Somos um híbrido, não aquele misto de energia ambientalmente correta a quem retiraram os benefícios fiscais, mas um país que assenta o seu modelo de desenvolvimento no welfare mix de caraterísticas, combinando as particularidades dos países do centro com as especificidades da nossa História. Somos, por isso, periféricos na localização territorial por referência à Europa, mas semiperiféricos nas caraterísticas desenvolvimentistas, que nos interpelam a combinar as virtualidades de ambos os sistemas.

Assentamos a nossa estratégia numa combinação virtuosa entre todos, numa energia combinada de todas as tendências, que não nos misturam à toa, mas que combinam as virtualidades num todo coerente. Não somos a balbúrdia, mas a combinação virtuosa de dimensões.

Talvez por isso, somos exagerados. Nos momentos de crise, exacerbamos as raivas, crispamos os discursos, acentuamos as diferenças. Fazemos, assim, participar no debate todas as combinações possíveis. Mas, ainda assim, juntamos energias quando é necessário, sentimo-nos fortes numa identidade coletiva. Se cá estivesse o Scolari, mandava-nos colocar bandeiras à janela. Mais não seja, para nos unirmos apesar das diferenças.

Vamos sair disto, com a energia de quem honra 900 anos de História, muitas vezes em tribulações e disputas, mas sempre como um nobre povo. Fartos de ouvir dizer o que corre mal, lembramos os nossos avós e as suas formas de vida para mostrar que caminhamos em frente. Não tão depressa como gostaríamos, mas com a força de quem se constrói a cada dia e de quem sempre ganhou dimensão com rumos claros.

Precisamos de paz, de equilíbrio, de bom senso e de tenacidade. Não sei se precisamos de começar a preparar um plano Marshall ou um Marquês do Pombal, mas seguramente precisamos da força coletiva que nos leva a descobrir novos mundos por entre o nevoeiro e a valorizar as musas que nos inspiram.

Presidente da CM Gaia / Área Metropolitana do Porto

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