Os últimos tempos foram marcados pelas eleições autárquicas. Mostrou-se que o poder local continua a ser o reduto da relação de proximidade e de confiança.

A abstenção trouxe desafios. Melhor, as abstenções. Sim, porque a abstenção é um fenómeno complexo e com muitas variante e motivações, não é um aspeto que se possa ler apenas na desconfiança dos cidadãos da política ou no alegado comodismo geracional. Num país onde cada vez mais encarregados de educação faltam às reuniões nas escolas, ou onde os condomínios são o novo reduto das reuniões sem quórum, mesmo para tratar das partes comuns do prédio, bem podemos esquecer a visão unidimensional e simplista dos assuntos políticos.

Alguma Comunicação Social terá ilações para tirar. Apostar na centralidade dos municípios pelas disputas mais diretas e, por isso, mediatizáveis, é mostrar que também a cobertura informativa das autárquicas foi decidida pelo share. Ficamos a perceber que os municípios onde há estabilidade política, onde não há polémicas ou fogo-fátuo, não são municípios apetecíveis para cobertura informativa. A lógica é ínvia: se não há guerra ou trapaça, o concelho não tem interesse, independentemente do número de pessoas e da missão informativa. Afinal, só são mediatizáveis as guerras giras e as polémicas sangrentas, desvalorizando-se as boas práticas e os bons exemplos. Assim, não se admirem com as perceções das pessoas…

Houve alguma “nacionalização” da campanha? Claro! As autarquias não são apenas localistas, nem reivindicam com o Governo para dar nas vistas. Muito do debate autárquico é também debate sobre política nacional, sobre opções de investimento e sobre fundos disponíveis.

Quer o Governo quer a oposição têm o dever de dizer o que pretendem do território e das pessoas neste momento da aplicação dos fundos europeus e das decisões com impacto regional. E António Costa fê-lo. Com clareza, assumindo compromissos, defendendo as suas ideias. A oposição fez o mesmo. Nunca se falou tanto em salários, direitos sociais, desemprego, entre tantas outras áreas externas às competências municipais, do que nestas eleições… municipais.

Até é legítimo o papel da oposição da oposição! As eleições autárquicas serviram para o desfile do “protossucessor”. O ativo dr. Paulo Rangel, que apresentou queixinhas em Bruxelas pelo debate do PRR, é o mesmo social-democrata que se preparou para “nacionalizar” a noite autárquica. Correu-lhe mal. Quem começa a correr fora do ritmo chega a meio da corrida já estafado. E arrisca a ficar sem fôlego para a terminar…

Vem agora o Orçamento do Estado, porque passa também por aí o futuro do país. Assumam-se compromissos e cumpram-se. Com as pessoas e com os partidos com quem se estabelecem alianças. Só assim se cumpre o 5 de Outubro.

Presidente da C. M. Gaia e da Área Metropolitana do Porto