A porta estava entreaberta, pareceu haver ali um conhecido perfume que a gastronomia cria e que a memória não esquece. Ao lado, o senhor da papelaria mostrava a nova montra e uma coleção de miniaturas de carros. E mal eu tinha reparado que a porta estava pintada, um suporte de gel desinfetante ao lado de uma nota de boas-vindas, as prateleiras com nova arrumação. O senhor José disse sorridente: de volta ao que é bom! Levar para casa não é igual! E não.

Parei antes de entrar. Olhei ao redor. Parecia que tudo era conhecido, que tudo era familiar, mas que já não via há muito tempo, embora olhasse frequentemente. A pandemia, este encerramento das nossas coisas, dos restaurantes, da papelaria, da lojinha da esquina onde compro as melhores peúgas, tudo isto parecia ser, ao mesmo tempo, velho e novo. Velho, porque conhecido. Os cheiros, os sorrisos, os cumprimentos. Mas também novos. Novos nos olhares, na redescoberta do óbvio, de uma parte do nosso quotidiano que, afinal, só valorizamos novamente depois de sentirmos falta.

Somos um pouco assim. O nosso quotidiano é marcado pelo óbvio, pelo constante. Coisas excelentes, momentos felizes, cenários lindos, apenas iludidos pela traição da normalidade e do óbvio. O que está sempre lá, as pessoas que nos encontram, são parte de nós, parte da comunidade e, talvez por isso, tornadas rotinas. E tantas vezes desvalorizadas.

Veio a pandemia e perdemos o quotidiano. Passamos a temer, a refrear contactos, ao mesmo tempo que refletimos sobre nós e sobre os outros. Eis que, volvidos meses de encerramento, o retorno ao nosso quotidiano parece assemelhar-se ao encontro do emigrante com a lojista da sua cidade natal.

A pandemia fez algumas maldades e continuará a fazer. Mas não conseguiu isolar-nos, nem obliterar as nossas memórias. Pelo contrário, reforçou-as, fez-nos valorizar o dia da reentrada, onde encontramos alguns amigos e conhecidos que já não víamos há tempos. Coisa estranha; o reencontro pareceu uma emoção, uma nova valorização do que parecia óbvio, porque garantido. Afinal, uma redescoberta de nós e dos outros.

Voltamos a valorizar o que é nosso, as pessoas do nosso dia a dia, os colegas de mesa ou de quiosque a quem dizíamos um bom-dia da praxe, mas que passamos a dizer um “há quanto tempo! Essa saúde?”. E olhamos as pessoas nos olhos, mais ou menos húmidos. Estamos a sair da coisa que nos atormenta. Sairemos mais fortes, mais unidos. Com vontade de viajar, é certo. Mas com uma redobrada estima pelas nossas cores, cheiros e pelas interjeições das pessoas do nosso quotidiano. Ficamos um pouco assustados. Mas estamos bem mais fortes, mais valorizadores das nossas pequenas coisas e dos nossos pequenos espaços, momentos e pessoas. Apetece dizer: vais falhar, maldita pandemia!

Presidente da Câmara Municipal de Gaia / Área Metropolitana do Porto

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