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Quem conhece os pescadores da Afurada ou da Aguda, nas terras de Gaia, sabe que eles têm dois trabalhos. De noite, vão ao mar na busca do seu sustento, o peixe fresco que alimenta as pessoas. Durante parte do dia, ficam em terra a tratar das suas redes, remendando as mesmas e tratando-as com todo o cuidado. Eles sabem que as redes são determinantes para a faina, sabem que a sua consistência é fundamental para o sucesso da pescaria.

A pandemia veio mostrar que precisamos de mais cuidado com as nossas redes, as redes sociais, tão iguais às redes da pesca; mostrou que sem redes cuidadas e consistentes ficamos com uma sociedade deslaçada, sem força, incapaz de subsistir. Falamos das redes sociais, as redes que nos unem como comunidade, como sociedade coesa e reforçada. Tal como os pescadores da Afurada e da Aguda, o cuidado com as redes sociais é determinante para o sucesso da nossa vida diária.

O Plano de Recuperação e Resiliência vem acrescentar recursos, complementando o novo quadro plurianual e ainda o overbooking do quadro comunitário ainda em vigor. Mas importa que as redes estejam suficientemente coesas e reforçadas para traduzir esses recursos em potencial de coesão e em opções corretas. Uma sociedade coesa será, inevitavelmente, uma sociedade mais próspera e sustentável. A força das redes é uma matriz elementar para que os recursos não sejam acrescentados, mas sejam multiplicados.

O país vai viver tensões normais; quem fala mais do interior, quem fala mais das infraestruturas, quem fala mais da densidade de ocupação do território. E, já gora, quem mais fala de rigor. Este último tópico tem de ser assumido; não podemos continuar com mecanismos ardilosos, prescrevam ou não, que suguem abusivamente os recursos coletivos em nome de interesses individuais.

Por outro lado, importa ultrapassar retóricas erradas. Tem sido curioso perceber que, afinal, são os maiores defensores do mercado e opositores ao Estado quem mais está empenhado em vir ao Estado buscar todos os recursos. É sempre assim; há uns tantos liberais que o são em tempo de crescimento, donde retiram lucros avultados para destinos paradisíacos. Mas, chegado o momento da crise, resolvem defender a integral socialização dos problemas, pretendendo ignorar os problemas sociais em nome da concentração das atenções em si próprios.

Parece ser evidente que o investimento público em Portugal não é endogeneizado por empresas públicas de construção ou de fornecimento de equipamentos. O dinheiro da bazuca não é para o Estado ou para as empresas; é para o país, entendido como um todo e onde não cabem os radicalismos oposicionistas entre mercado e Estado.

Presidente da C. M. Gaia / Área Metropolitana do Porto

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Eduardo Rodrigues

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