Marcelo Rebelo de Sousa enunciou o mote: a luta contra os extremismos faz-se no plano das ideias, na demonstração da superioridade ética e da força dos princípios democráticos sobre qualquer outro modelo.

Disse-o depois de ter cilindrado as ideias populistas e depois de ter arrumado o paradigma do mercado que tudo resolve. E fez esta proclamação na mesma semana em que a violência extremista transformava os EUA numa qualquer imagem de luta fanática armada. A violência e a opressão (armada, judicial, jurídica) serão sempre menos eficazes do que a demonstração da força das ideias e da maioridade dos princípios, dos valores e da ética republicana e democrática.

Esta é também uma interpelação aos jovens. Sabe-se que a política é, muitas vezes, aborrecida. Parece pouco prática. Pois! Mas não há nada mais prático do que um bom debate teórico e de ideias. E prescindir desse debate, por preguiça ou por mera rejeição, significa prescindir do desenho coletivo de um futuro melhor.

Os desafios atuais são complexos e difíceis. Aliás, sempre o foram, no contexto de cada geração. As respostas não são óbvias, são tão complexas e multidimensionais quanto a própria realidade. E isso exige debate e participação, verdadeiro espírito crítico, indagação sobre o Mundo e sobre as soluções imediatas e proféticas. Hitler foi eleito (sim, eleito) com a proposta de soluções mágicas (basta ler o “Mein kampf”, coisa obrigatória para perceber a simplicidade dos projetos abjetos). Simplicidade de pensamento, tiradas facilitistas repetitivas e propostas securitárias de fácil adesão num contexto de angústia; eis a fórmula, sempre de mais fácil disseminação num tempo de crise, medo e indefinição sobre o presente e sobre o futuro.

É verdade que o sistema teima em resistir a reformas decisivas: o modelo de votação, os círculos eleitorais mistos, combinando a representação nacional e os círculos uninominais, a duração dos mandatos, os modelos de transparência e de participação, a regionalização… Mas isso resolve-se pela força do debate e da participação, pela dinâmica democrática e pela voz ativa da cidadania.

O papel das escolas, das universidades, do tecido empresarial ou da economia social, com voz e sem amarras, será decisivo. A crise da política não será, afinal, uma crise da política, mas uma crise da sociedade como um todo. E, como é mais fácil, perante a crise surge a oportunidade para os discursos antissistémicos, aparentemente subversivos contra o sistema, sendo, na verdade, defensores de um sistema social alternativo.

É certo que podemos ter tentações de experienciar uma cantiga aparentemente melodiosa; só importa que tenhamos consciência de que a experiência pode custar caro e deixar marcas duradouras. Os EUA que o digam.

*Presidente da CM Gaia / Área Metropolitana do Porto

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