Os cidadãos devem assumir-se como o pilar da democracia. Sob a égide dos conceitos de comunidade, de participação, de cidadania, entre tantos outros, as pessoas são chamadas, hoje mais do que nunca, a envolverem-se na vida pública.

O paternalismo com que se aborda a abstenção, como uma consequência do desencanto, deixa-nos presos ao argumento: se formos a inibir a participação na vida social em função do desencanto com diversos setores, momentos ou fatores, bem podemos arrumar as botas de tudo. Há problemas em todas as dimensões da vida social, desde a família ao Estado, desde a Justiça ao desporto. Mas isso não nos deve afastar da vida coletiva, antes deve reforçar a nossa vontade de participação, evitando o reino dos piores.

Talvez ajude o reconhecimento de que nada é garantido: a democracia não é garantida (veja-se a bagunça da gestão(?) de Bolsonaro ou de Trump e as suas consequências para as pessoas), as políticas sociais não são garantidas (veja-se como foi possível cortar subsídios de férias ou de Natal, acabar com medidas sociais, cortar pensões ou dias de férias), a saúde ou a educação públicas não são garantidas (basta lembrar que isso não existe na maioria dos países do mundo), entre tantos exemplos.

Se nada é garantido, tudo pode ser posto em causa e muito do que consideramos óbvio pode mudar radicalmente.

O modelo de desenvolvimento tem de assentar nas pessoas e no humanismo das políticas (e dos políticos!), ou não será desenvolvimento nenhum. A economia e as finanças não são o fim das políticas, são um instrumento da vida das pessoas, o que é bem diferente.

Por isso, devemos estar empenhados e disponíveis para um desenvolvimento participativo, onde ninguém pode colocar-se de fora. Quem se coloca de fora da participação cidadã está a colocar-se de fora do desenho do futuro das (suas) próximas gerações.

Isso serve de mote, mesmo quando o debate é focalizado, como o debate sobre a nova ponte do metro sobre o rio Douro. Uma ponte bela, calculada por engenheiros e desenhada por arquitetos formados pela faculdade cujos responsáveis se pronunciam. Uma ponte participada e decidida pela Ordem dos Arquitetos, muitos deles formados na mesma faculdade que encontra obstáculos estéticos e programáticos. Isto é a verdadeira participação. Mesmo quando o assunto não faz sentido para a generalidade das pessoas, mesmo quando os argumentos são tão rebuscados que nem a comunidade estudantil percebe (talvez por passar tempo exagerado nos transportes existentes), mesmo quando se discutir a extensão do túnel ou a necessidade de trânsito rodoviário, ao mesmo tempo que discutimos a (aparentemente) unânime descarbonização rodoviária, mesmo assim, o debate enriquece a decisão.

O povo, essa entidade abstrata e tão concreta, percebe o conceito do NIMBY. Tudo é possível para o mundo, desde que não seja no seu quintal. Enquanto o debate for feito por visões de quintais, podemos escrever textos sobre a globalização, mas nunca seremos globais. Mesmo com pontes…

*Presidente da CM Gaia / Área Metropolitana do Porto