Portugal está farto da enfadonha gabarolice de quem se acha superior e já não aguenta a subtração de recursos que nos tolhe a confiança, ou a desfaçatez de quem perde a vergonha ao mesmo tempo que vende a dignidade. Isso não explica, por si só, a abstenção, mas ajuda. Um abraço com uma navalha no meio dos dedos não é disfarçável.

Não estamos condenados a viver em dificuldades, porque temos um país magnífico e cheio de riquezas. Mas, sobretudo, não estamos condenados a empobrecer à medida que uns tantos fazem a fiesta, sem cuidarem daqueles que devem servir. Para combater isso, precisamos de instituições fortes. Um Estado descentralizado, prestigiado e que reflita as respostas às necessidades das pessoas e os projetos de mudança que nos abram os horizontes do futuro. Um Estado que esteja junto das pessoas, não por tentáculos mais ou menos visíveis, mas pela libertação da capacidade de gerir, de decidir, de empreender. E isso chama-se regionalização. É por aí que temos de ir.

Esse papel do Estado deve ser articulado com um mercado regulado e solidário, bem menos predatório e bem mais inclusivo, mas simultaneamente com a economia social, um legado centenário que Portugal tem e deve acarinhar como elemento de desenvolvimento. A economia social, ou como alguns lhe chamam, o terceiro setor, mostrou em muitos momentos ser o verdadeiro “primeiro setor” na resposta aos problemas, num modelo de welfare mix que nos deve orgulhar e que devemos ter como central nas nossas estratégias.

Precisamos de uma justiça que não se deixe colonizar pela moda da mediatização arrasadora, metade para suprir egos, metade para demolir a credibilidade da política com o incauto desprezo pelo efeito boomerang, e que seja cautelosa quando equipara uma alarve carta anónima a um documento de Estado. Uma justiça que seja menos especulativa e que mantenha a sua independência, até mesmo em termos da partilha do edificado entre quem acusa e quem decide.

Precisamos de uma cidadania empenhada, cidadãos mais envolvidos e atentos. É preciso debate político, política nas escolas, nas universidades e no debate público, o que coloca o assunto também nas mãos dos media. E, no debate político, é preciso ser incisivo, genuíno e direto, mesmo que não seja politicamente correto. Deus ter-nos-ia posto água nas veias, em vez de sangue, se nos quisesse imperturbáveis, como já explicava Júlio Verne. A intensidade com que se defende as ideias não é, por norma, o defeito do irascível, é, em vez disso, o feitio do convicto.

O debate político exige clareza. Menos cinismo, menos taticismo. Só assim se evitará que a democracia seja tomada por egos, vaidades e dissimuladas insuficiências, umas e outras sempre ridiculamente excessivas. Que pensem nisto aqueles que podem atirar o país para a convulsão de umas eleições antecipadas, impedindo o Governo do governar e o país de crescer no rescaldo da pandemia.

Presidente da CM Gaia / Área Metropolitana do Porto