Há debates que importa contraditar, sob pena de deixarem de ser debates e se tornarem verdades irrefutáveis.

São uma espécie de etnocentrismo radical, olhando para a História com os padrões atuais, uma censura do passado sem cuidar de o interpretar ao seu tempo, como se pudéssemos perceber os temas de Pessoa com as vivências de Sophia e vice-versa.

É um pouco uma reescrita da História, qual julgadora do passado, como se importasse obliterar D. Afonso Henriques por ter batido na mãe (nos dias de hoje, isso é crime, e bem!) ou amputar dos livros a maioria dos nossos reis que assumiram uma lógica imperial ou colonialista. Alguém saberia de uma agressão física de um governante atual, sem pedir a sua demissão e o julgar por crime? Mas isso implica retirar o fundador da nacionalidade do jardim do Paço dos Duques?

Volta e meia, temos uns ímpetos de retirar nomes dos livros de História, demolir monumentos ou devolver peças de museu. Devolver o ouro nazi aos judeus é uma justa causa; demolir um altar feito há 300 anos por escravos será diferente. Em vez de demolir o altar, prefiro glorificar os seus mártires.

Os tempos são propícios ao esquecimento, ora dissimulando a ignorância, ora arrebitando o radicalismo ideológico, disfarçado de moralismo assético detentor do “cogito”.

Vamos, portanto, por aí fora: devolvam-se as peças museológicas trazidas das colónias, queimem-se os livros dos poetas e prosadores que lhes deram voz literária, retirem-se os monumentos de uma época, descole-se o ouro surripiado do Brasil posto nos altares ou que financiaram palácios. Vamos também pedir a devolução ao Brasil das tapeçarias, quadros e mobiliário levados do Paço Real de Mafra, pela Família Real, em 1807?

Faça-se o julgamento de Afonso Henriques (os crimes de violência doméstica não devem prescrever), retirem-se os quadros alusivos ao colonialismo, devolva-se a madeira roubada, o marfim trazido ou o ouro sacado em troco da vida dos colonos.

Enfim, suicide-se Portugal e a sua História, acabe-se com essa perda de tempo de ensinar e perceber a História…

Numa das visitas que fiz a Auschwitz, no intervalo docente em Cracóvia, tive um guia que explicou que não estávamos num parque, nem num museu. Estávamos num cemitério, onde aconteceram coisas horrendas contra a Humanidade e contra, reforçava, os seus antepassados. Mas a visita servia para glorificar as vítimas e conhecer detalhadamente o passado e nunca o repetir. Ensine-se a História para não a repetirmos, em vez de a depurarmos para alívio da consciência.

Mais do que descolar o ouro dos altares, lembre-se como as coisas aconteceram, para evitar este chauvinismo que Fernando Henrique Cardoso chamava desenvolvimento dependente ou neocolonialismo, extinguindo o passado impróprio, enquanto usamos alegremente um computador montado no Vietname por quem não tem nenhum direito básico.

*Presidente da CM Gaia / Área Metropolitana do Porto

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