Os tempos atuais são desafiantes para o país e para a Europa. A pandemia colocou a nu o conjunto de equívocos históricos que foram prosseguidos, abrindo o flanco para os atuais incrementos de preços das matérias-primas e das matérias transformadas e, consequentemente, para a inflação.

O esquecimento ou a desvalorização do processo industrial em nome de uma dita inovação apenas criou o cenário perfeito para a forte emergência de países que participam no sistema-mundo com distorções competitivas claras, aceites tolerantemente pelo Ocidente que, ao mesmo tempo, declara abominá-las. Voltamos a ser confrontados com a carência de matérias-primas e com o aumento dos preços das obras, dos transportes, dos serviços e até da tecnologia. Facilitamos a desindustrialização, cedemos à externalização produtiva em nome do baixo preço, da mão de obra barata e da mais longínqua pegada ambiental, e reforçamos um processo de globalização claramente desigual.

A pandemia apenas agilizou as tendências e reforçou as dificuldades para os países europeus. A ameaça da inflação, o fantasma sempre presente como prenúncio da crise económica, exige uma atempada intervenção das instituições europeias.

Essa visão foi materializada por António Costa, com uma negociação exemplar do PRR, capaz de se assumir como o instrumento mais poderoso da coesão social e da reconversão económica dos países em geral e de Portugal em particular.

Aliás, se assim não for, sempre posso alvitrar que serão as instituições europeias a cair na crise e na descrença. Os países não podem ter uma visão instrumental da Europa, mas o momento atual, em que vão campeando os populismos e os nacionalismos retrógrados, é tempo de aprofundar a coesão social dos cidadãos que tendem a ficar para trás ou daqueles que, vivendo no fio da navalha, temem a queda social e económica na estrutura. Isso lança ameaças à democracia, ao desenvolvimento e à Europa.

Importa, pois, renovar os compromissos éticos, políticos e institucionais. Uma política que defenda as pessoas e desenhe os caminhos certos para o futuro. Uma justiça que não procure afirmar-se pelo exibicionismo fácil. Um conjunto de cidadãos responsáveis e defendidos dos populismos. O respeito pelas instituições, que depende também das instituições e da forma como se organizam e respeitam mutuamente. E uma Europa que não receie a desagregação, sabendo que tem muitos dos instrumentos para a impedir, através do seu aprofundamento e do aprofundamento das políticas europeias como matriz de desenvolvimento e de sustentabilidade.

Isso implica, quase paradoxalmente, mais país e mais Europa. Mais país para gerir as tendências e aperfeiçoar os instrumentos de desenvolvimento. E mais Europa para fortalecer os laços entre diferentes potencialidades, diferentes sensibilidades, mas desafios comuns. Não basta olhar para o papel da Europa de sete em sete anos, quando discutimos fundos. A Europa será política, ou não o será. E, não o sendo, tende a definhar. Daí a importância do papel de Portugal.

*Presidente da CM Gaia / Área Metropolitana do Porto

Eduardo Rodrigues

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