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O arranque do ano letivo mostrou o país que somos. Mostrou que estamos longe do país rural do Camilo, do país da média burguesia pacóvia do Eça ou do Portugal decrépito que uma parte de Pessoa escreveu.

Demos sinais de contradições, é certo. Mostramos receio da pandemia, exigindo o integral funcionamento de regras na escola, mas permitimo-nos ficar ao portão da entrada em grupo alargado, como se estivéssemos no adeus à Virgem. Apesar de lá estarmos a participar no momento, íamos tirando umas fotos para as redes, a criticar as pessoas que lá se amontoavam (exceto o próprio, claro!) e a vociferar contra a falta de Polícia.

Ficamos ansiosos por ver gel, tapetes desinfetantes e autocolantes coloridos, mas criticamos a existência de filas na entrada, como se os alunos devessem entrar à toa na escola.

Mas isto são episódios. O nosso país sempre teve destas vicissitudes que o grande Miguel Esteves Cardoso transforma em crónicas de morrer a rir (claro que só nos rimos, porque achamos que se aplicam apenas aos outros!).

Certo é que o ano letivo mostrou a maturidade de pais e de professores. Os primeiros, cientes da realidade, assumiram as suas responsabilidades, em vez de dispararem ódio. Os segundos, marcados pelas dúvidas sobre as aulas presenciais, foram agentes de tranquilização da comunidade. As autarquias fizeram o que deviam e o que não lhes era devido…

A pandemia é motivo de preocupação, claro. Para alguns, a pandemia serve para vomitarem frustrações e responsabilizarem a escola por aquilo que se esquecem de fazer em casa. Mas, globalmente, fomos mais uma vez um povo de princípios, sereno e atento, preocupado e empenhado.

Muitos serão os novos comportamentos, as novas práticas e tendências que emergirão desta pandemia. Muitas formas de ver e de pensar a realidade terão alterações, quiçá alterações definitivas. Mas uma coisa é evidente: estamos mais próximos, mais empenhados na comunidade e mais responsáveis uns pelos outros.

Podemos refilar com uns pormenores, mas temos a noção do país que somos e das condições sociais invejáveis (na escola, na saúde, no espaço público), muito melhores do que na maioria dos países do Mundo, apesar dos receios a que respondemos fazendo das tripas coração.

Foi tocante ver o reforço da valorização dos professores e da escola, como já tínhamos visto com os profissionais de saúde. Foi marcante assistir à solidariedade dos pais uns com os outros, com a escolas, autarquias e agentes de saúde. Exigentes, é certo, porque queremos sempre mais. Mas serenos e confiantes, porque sabemos que temos um país que funciona, instituições que se esforçam e um povo que nos deve orgulhar.

A caminho dos 900 anos como país independente, mostramos como aqui chegamos: com união, sentido de comunidade e confiança nas nossas instituições.

Presidente da Câmara Municipal de Gaia / Área Metropolitana do Porto

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Eduardo Rodrigues

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