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O ataque feito a António Guterres por uma aparente inércia na abordagem à hedionda guerra de Putin contra a Ucrânia mostrou o efeito consolidado das redes sociais no pensamento e nos comportamentos sociais. É certo que a ONU já foi ONU.

Os tempos demonstraram que o espírito da Sociedade das Nações foi sendo esvaído pelos efeitos da Guerra Fria, pela generalização da paz nos principais blocos mundiais, pela abordagem da instituição a novos problemas sociais, como o desenvolvimento sustentável ou o humanitarismo, compensando a menor força “política” a esta nobre instituição. É também certo que não ajudaram as intervenções militares sem mandado da ONU e assumidas em nome de interesses globais que, afinal, mais não foram do que lógicas de poder nacional e financeiro. Tudo isto e muito mais foi contribuindo para a desvalorização do poder da ONU no contexto geopolítico internacional.

No entanto, a particularidade deste momento é o repentino combate contra a ONU e contra Guterres, quase chegando ao ponto de associar essa crítica à (consequente?!) viagem do secretário-geral da ONU a Moscovo e a Kiev!

A facilidade com que os comentários políticos zurziram Guterres não pode deixar de ser associada à sua postura institucional. Guterres não é um “one man show”, não é “trumpista” no exercício do seu mandato, vociferando para as redes sociais todos os passos que dá. No frenesim atual do post no Facebook, dos carateres no Twitter, das fotos no Instagram, muitos parecem esquecer que a diplomacia internacional não se faz nas redes sociais. Até para muitos comentadores, parece que só existe o que é publicado nas redes, porque é aquilo que conseguem comentar no imediatismo do seu tablet em plenos diretos televisivos.

O papel principal do secretário-geral da ONU não é alimentar redes sociais, muito menos transformar a diplomacia num post para contentar comentadores. A diplomacia é segurança, discrição, trabalho de bastidores e em relações tensas, difíceis e necessariamente complexas.

Querer cingir o papel de Guterres às informações que surgem nas redes é provar o efeito das redes; já nos esquecemos que isto não é um Big Brother. Uma coisa é a brilhante estratégia comunicacional de Zelensky, motivando as pessoas e consolidando uma faceta da luta (a guerra comunicacional) através das redes, outra coisa é o papel mediador de Guterres, que exige mais do que uns posts na Internet. Não o querer perceber é já estar contaminado pela força das redes sociais.

No mesmo tempo histórico, Elon Musk comprou o Twitter por uma nave espacial de notas. Se o Twitter for, como explicou Miguel Esteves Cardoso, uma coisa nenhuma, apenas sendo o grupo de pessoas que lá estão, podemos questionar o negócio que valeu quase tanto como o orçamento da saúde dos EUA. Trata-se de dinheiro, isso é certo; trata-se de expressão pública, isso é claro; trata-se de liberdade e de democracia, sem dúvidas; trata-se de pessoas, claro; trata-se de negócios, lucros e muitos mil milhões, obviamente; trata-se de poder, enfim. E já que o Twitter é uma coisa nenhuma, apenas sendo um ponto de encontro de pessoas, vale a pena pensar o que isto tem a ver, a prazo, com a estrutura social e com a “existência” daqueles que, como Guterres, não publicam um post de cada vez que fazem uma reunião ou um telefonema.

* Presidente da CM Gaia / Área Metropolitana do Porto

Eduardo Rodrigues

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